Depois do reparo ou ainda depois de uma queda, ou de um problema de impacto, um receptor de rádio comum AM pode necessitar de um ajustes. As diversas bobinas e trimmers que constam de seus circuitos precisam estar corretamente posicionados para que o rádio capte as estações com o máximo de sensibilidade.
O ajuste também é importante para que haja uma correta correspondência entre a freqüência indicada no mostrador e a freqüência da estação que é captada naquele ponto.
O ajuste de um receptor de rádio pode ser feito de duas maneiras: com a ajuda de um gerador de sinais (RF ou funções), ou “de ouvido”. Evidentemente, o ajuste feito com a ajuda de um instrumento é o melhor. Existem ainda dois outros ajustes a serem feitos: das etapas de FI e das etapas de RF. Vejamos como fazer esses ajustes.
Ajuste de FI
(com instrumento)
Para o ajuste das etapas de FI (freqüência intermediária) deve ser usado um gerador de RF ou funções acoplado ao receptor de uma das maneiras mostradas na figura 1.

Figura 1 - Ajuste das etapas de FI
1. Coloque o capacitor variável do receptor todo aberto, ou seja, de modo a sintonizar uma freqüência de 1 600 kHz. O volume deve estar entre ½ e ¾ do máximo. O gerador de sinais deve, então, ser ajustado para produzir um sinal de 455 kHz modulado em tom por 400 Hz ou 1 kHz. A intensidade do sinal deve ser ajustada para que o sinal seja ouvido no rádio com pequeno volume (bem baixo). Se o leitor quiser um melhor controle, poderá ligar na saída do alto-falante um voltímetro de corrente alternada.
2. Ajuste o núcleo das bobinas de FI até obter o máximo da intensidade de sinal no alto-falante ou máxima indicação do voltímetro. À medida que faz o ajuste, vá reduzindo a intensidade do sinal do gerador para conseguir com isso a maior sensibilidade. O ajuste deve ser feito com chave de plástico ou madeira, conforme ilustra a figura 2.

Figura 2 - Uso de chaves de plástico ou madeira para ajustes de FI
3. Repita o ajuste algumas vezes até obter o melhor ponto de funcionamento.
Ajuste de FI (“de ouvido”)
Sintonize o receptor para receber uma estação fraca da faixa de ondas média, Não use antena externa a não ser que a estação captada seja demasidamente fraca. Não mude a posição do rádio durante o ajuste. Coloque o volume em ½ ou ¾ do máximo.
Procedimento:
1. Se tiver um multímetro ou voltímetro, também poderá ser usado em paralelo com a saída do alto-falante. No entanto, como os sinais variam de intensidade, conforme a modulação, a avaliação da intensidade é um pouco mais difícil.
2. Ajuste os núcleos das bobinas de FI até obter o máximo de intensidade de sinal. Se o ajuste inicial for feito com uma antena, nos casos de estações muito fracas, retire a antena quando a estação já puder ser recebida sem ela.
3. Use chave de plástico ou madeira. Não use chave de metal, pois o metal influi no ajuste.
4. Repita a operação até obter a melhor recepção dos sinais.
Ajuste das etapas de RF (com o gerador de sinais)
A conexão do gerador ao rádio é feita da mesma forma que no caso do ajuste das etapas de FI.
Procedimento:
1. Coloque o capacitor variável do rádio na posição-totalmente fechado, que corresponde à freqüência de 530 kHz na maioria dos receptores de ondas médias. Ajuste então, o núcleo da bobina osciladora do rádio até que o sinal modulado do gerador seja ouvido no alto-falante.
2. Coloque o capacitor variável na posição de todo aberto, que corresponde a sintonia do extremo superior da faixa, de 1 600 kHz. Ajuste o trimmer da bobina osciladora para obter a reprodução do sinal. O trimmer da bobina osciladora nos receptores transistorizados está ligado em paralelo com o capacitor variável ou em sua seção osciladora.
3. Coloque o capacitor variável numa posição que permita sintonizar a freqüência de 600 kHz. Use o mostrador do rádio para isso. Ajuste o gerador de sinais modulado em tom para essa freqüência. Ajuste depois o núcleo da bobina de antena do receptor para obter a maior intensidade de sinal nessa freqüência, conforme indica a figura 3. Esse ajuste é feito movendo-se a bobina sobre o núcleo de ferrite. Ajuste até alcançar o máximo rendimento.

Figura 3 - Ajuste do núcleo da bobina de antena
4. Sintonize o receptor numa freqüência de 1 500 kHz orientando-se pelo seu mostrador e ajuste o gerador de sinais para a mesma freqüência. O sinal produzido deve ser modulado em tom. Ajuste o trimmer da bobina de antena para obter o máximo de intensidade do sinal. Esse trimmer, nos rádios transistorizados comuns, também está no capacitor variável, do lado do trimmer da bobina osciladora. Para identificar os dois trimmers é simples. Mexendo no trimmer da bobina osciladora, o sinal muda de freqüência (a estação foge ou o sinal escapa). Mexendo no trimmer de antena, o sinal muda de intensidade (fica mais forte ou mais fraco).
5. Repita todas as operações para conseguir o máximo rendimento possível do receptor. Será conveniente refazer o ajuste da FI depois desse, pois eles são interpedentes.
Ajuste de RF “de ouvido”
Estações comuns podem ser usadas como referência para esses ajustes, desde que o rádio ainda esteja suficientemente em bom estado para poder sintonizar pelo menos uma delas. Se o receptor não sintonizar nada, será bem difícil fazer esse ajuste. O profissional poderá antes fazer algumas tentativas no sentido de tentar captar pelo menos uma estação, e usá-la como referência.
Procedimento:
1. Sintonize uma estação no extremo inferior da faixa, entre 530 e 650 kHz, preferivelmente. Use uma antena externa, se não existirem estações fortes no local ou o receptor estiver muito desajustado. Procure saber qual é a freqüência real da estação. De posse dessa informação dada pelos locutores, veja se ela corresponde à freqüência indicada no mostrador do rádio. Se corresponder, passe à etapa seguinte do ajuste. Se não, ajuste o núcleo da bobina osciladora e acompanhe a sintonia para que a estação seja deslocada para o ponto certo do mostrador. Essa operação deve ser feita com cuidado para não perder a sintonia, principalmente se ela for muito fraca.
2. Sintonize agora uma estação no extremo superior da faixa de ondas médias, entre 1 500 e 1 600 kHz. Use a antena externa, se for muito fraca. Procure, do mesmo modo, descobrir qual é a freqüência e veja se ela corresponde à indicação do mostrador. Se estiver no local certo, passe para o item seguinte. Se não estiver, ajuste lentamente o trimmer da bobina osciladora e, ao mesmo tempo, vá mudando a sintonia até levá-la ao ponto certo do mostrador.
3. Sintonize o receptor para uma estação no extremo inferior da faixa de ondas médias, entre 530 kHz e 650 kHz. O ajuste deve ser feito agora no núcleo da bobina de antena, deslocando-o de modo a obter a máxima intensidade de sinal. Uma vez que a bobina seja deslizada sobre o núcleo até a posição ideal, pingue um pouco de cera de vela para prender a bobina no local de modo que ela não escape.
4. Vá agora novamente para o extremo superior da faixa, procurando uma estação entre 1500 e 1600 kHz. Ajuste então o trimmer de antena para obter a máxima intensidade de sinal. O trimmer, conforme já dissemos, é ligado em paralelo com o varável, na sua seção de sintonia. Diferenciamos esse do trimmer do oscilador, pois ao mexer neste último, a estação “foge”. No trimmer de antena, a estação muda de intensidade.
5. Todos os ajustes devem ser feitos com ferramentas não metálicas, para que não interfiram nesse processo.
6. Refaça todos os ajustes pelo menos duas vezes até estar certo de que o máximo rendimento foi obtido.
Ondas curtas
Os processos são os mesmos para o ajuste das FIs. Assim, uma vez que essas bobinas já tenham sido ajustadas para as faixas de ondas médias, não será preciso mais mexer nelas.
O ajuste que faremos será então das etapas de RF, observando que, como no capacitor variável, nesses receptores existem trimmers separados para cada faixa. Há normalmente um “monobloco” de sintonia, sendo importante que o leitor que pretenda fazer o ajuste identifique os diversos trimmers que ele possui.
Procedimento:
1. Coloque o capacitor variável de modo a sintonizar a freqüência mais baixa da faixa que está sendo ajustada. O sinal deve estar modulado em tom e com pequena intensidade, de maneira que o som reproduzido no alto-falante do receptor seja baixo. Sintonize o receptor na mesma freqüência e ajuste o núcleo da bobina osciladora até “achar” o sinal.
2. Abra totalmente o variável de modo a sintonizar a freqüência mais alta da faixa que está sendo ajustada. Ajuste o gerador de sinais para produzir a mesma freqüência. Atue sobre o trimmer dessa faixa, até sintonizar o sinal.
3. Passe agora, novamente, o receptor para uma freqüência próxima do extremo inferior da faixa. Por exemplo, se a faixa for de 3 a 7 MHz, coloque em 3,5 MHz. Use o gerador de sinais para gerar um sinal nessa freqüência. Ajuste, então, o núcleo da bobina de antena dessa faixa para obter a máxima intensidade do sinal.
4. De novo passamos o receptor para uma freqüência próxima do extremo superior da faixa, 6,5 MHz para a faixa de 7 MHz, por exemplo, e o gerador de sinais para produzir sinais na mesma freqüência. Ajuste o núcleo da bobina de antena para obter o sinal com máxima intensidade.
Conclusão
O que vimos neste artigo é válido apenas para rádios comuns do tipo super-heteródino, transistorizados, e alguns tipos que usam circuitos integrados com a mesma tecnologia. Esses ajustes levam o receptor ao ponto de máxima sensibilidade e seletividade.
Lembramos que a reparação de certas etapas de um rádio pode exigir que um novo ajuste seja feito e os procedimentos descritos são os normais. O procedimento é válido para qualquer rádio de AM, quer seja portátil, como parte de equipamentos de som, ou de uso automotivo.
Para os ajustes feitos “de ouvido”, evite locais com muitas interferências e ruídos que possam influir nos resultados finais.
O leitor deve ter percebido que a posse de um gerador de sinais que produza os sinais de ajuste é muito conveniente para o profissional. Observamos também que as etapas de um receptor de FM são ajustadas segundo procedimento diferente, que veremos oportunamente.
Observação
Se no final dos ajustes o receptor for levado a um comportamento crítico (excesso de sensibilidade) que o faça “apitar” em alguns momentos, devido à realimentação das etapas, tire levemente de sintonia a última bobina de FI.
*Originalmente publicado na revista Eletrônica Total Ano 19 - Edição 127 - Novembro/Dezembro 2007  |