ENTREVISTAS

 / Texas Instruments, uma empresa que aposta no Brasil


Antonio Motta


Texas Instruments,uma empresa que aposta no Brasil

18.01.2010   10:00 h

No Brasil os níveis de demanda estão surpreendendo em alguns setores,como o automobilístico,o médico, o de medidores de energia e de Telecomunicações, segundo Antonio Motta da Texas Instruments do Brasil

por Hélio Fittipaldi

Antonio Motta, diretor geral da Texas Instruments do Brasil, concedeu entrevista ao editor de Saber Eletrônica, Hélio Fittipaldi analisando o mercado mundial e o brasileiro no setor eletroeletrônico em 2.009 e projetando o que espera para 2.010, como veremos à seguir:

Motta, você poderia fazer um balanço sobre o que aconteceu neste ano, no ambiente econômico, tanto no mundo como na América latina, e fazer uma projeção para o ano de 2010?


Acredito que 2009 foi um ano de muitos desafios. Iniciou com uma perspectiva bastante ruim, até porque a crise chegou ao Brasil no final de 2008, e no início do ano havia então o pico da crise que aconteceu no primeiro trimestre e avançou um pouco para o segundo.
Foi um ano bastante difícil, principalmente na primeira metade. A partir de julho nós começamos a ter uma reação geral a nível mundial e também no Brasil. A crise no País acabou sendo mais curta, ela começou mais tarde e praticamente reiniciou as atividades antes de outras regiões.
O segundo semestre foi o inverso. Nós tivemos um crescimento significativo nos negócios, e estamos tendo agora uma demanda bastante alta por componentes, inclusive vivenciando uma situação de lead time extenso, por conta dessa rápida reação. Sem a possibilidade das fábricas reagirem a altura, revendo as decisões que haviam sido tomadas em função da crise.
Então o lead time está muito extenso, e em muitos casos há realmente comprometimento até de produção dos nossos clientes, e isso não aconteceu só com a Texas, está acontecendo  com outras companhias. Então, foi um ano de oscilações, começou muito ruim e está terminando, eu diria, até que muito bem, porém com essa dificuldade de abastecer os clientes.

De uma forma geral, esse lead time, é especificamente em uma parte do mundo ou isso vem crescendo em todos os países?

Isso está acontecendo de uma forma geral. Não existe mundialmente, nenhuma região que esteja fora dessa situação, e o que nós estamos observando é que tanto a Europa e Estados Unidos estão com uma demanda ainda um pouco reprimida, embora haja realmente a necessidade de um crescimento, mas este crescimento não está sendo vigoroso como o que está ocorrendo neste momento na China, na Ásia em geral, e aqui no Brasil também.
No Brasil os níveis de demanda estão surpreendendo em alguns setores, e diria que é uma reação maior do que está se verificando na Europa. Mas essa situação de lead time extenso e a falta de componentes, é realmente  um problema mundial.

Quais são os setores que estão surpreendendo aqui no Brasil?

Temos alguns setores que realmente estão demandando um maior volume. Atualmente o setor automotivo está com bastante demanda em função de algumas aplicações que estão aflorando principalmente na parte de rastreamento de veículos. O segmento médico e o de medidores de energia, são segmentos que estão demandando muito volume de componentes. Da mesma forma, o setor de Telecomunicações começou agora neste final de ano a ter uma demanda maior, também por conta de investimentos que estão acontecendo agora e devem continuar em 2010.
Esperamos que a partir de agora e início do bimestre de 2010 o segmento de Telecomunicações volte a demandar muitos investimentos e infraestrutura, para comportar o crescimento da economia que estamos esperando para o próximo ano. Como o crescimento do produto interno bruto (PIB) da ordem de 5%, parece pouco, quando você fala em números, mas investimento de 5% é bastante significativo e se estende para toda economia.

A perspectiva da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) para o próximo ano é otimista, em setores como eletrônica embarcada é algo que indica crescimento . Como a Texas observa isso?

O crescimento que a Abinee está projetando de 11% está bastante realista. Nós da Texas, particularmente, acreditamos que podemos crescer mais que isso, em 2.010, em função do que estamos verificando atualmente em vários segmentos. A minha perspectiva é que possamos chegar talvez até uns 15% de crescimento em relação a 2009. Essa alta projeção será resultado do desenvolvimento de alguns setores como já mencionei, o setor de medidores de energia, acho que é um dos que realmente está com perspectivas muito boas, até porque existe uma necessidade de se automatizar, substituindo os medidores de energia por medidores eletrônicos fabricados e projetado aqui no Brasil. E o mais importante é ser projetado aqui, porque a maioria dos fabricantes projeta lá fora e produz no País. Essa demanda existe por uma necessidade urgente das concessionárias pelo controle maior sobre a medição, evitando fraudes.
Já o setor de eletrônica embarcada, vai acontecer, talvez, mais acoplado a essa parte de rastreamento de veículos, e também não só rastreamento, mas monitoramento através de chips dos veículos. Talvez não aconteça tudo em 2010 mas se tem uma perspectiva muito boa para os setor automotivo. A eletrônica médica, sem dúvida, é algo que está aflorando já há alguns anos, mas acreditamos que agora vai ter um impulso muito grande com a substituição dos produtos importados por equipamentos projetados e fabricados no País. E o governo também tem muito interesse nisso, até porque é um setor de muita procura nas políticas públicas, então achamos que este é o setor que cada vez mais vai ter investimentos e com isso substituição de aparelhos por eletrônica.
  Falta profissionais de engenharia no mercado?

Existe uma demanda reprimida neste setor, tenho lido em alguns veículos que há falta realmente de engenheiros. Alguns anos atrás havia engenheiros trabalhando em outras profissões, por não conseguirem se colocar na área. Atualmente o que está havendo é uma necessidade muito grande de contratar bons profissionais, este é o grande problema, temos que ter bons profissionais nesta área.

A Texas nesses últimos anos comprou algumas empresas, com isso aumentou o seu portifólio de produtos se voltando também para os analógicos. Como você avalia essa expansão de produtos?

A Texas passou por vários ciclos de crescimentos e investimento em vários setores. Tínhamos uma predominância na área digital com DSPs onde a Texas chegou a ter 80% de marketing share a nível mundial. Isso se mantém, quando se tem um marketing share alto a tendência é conquistar setores onde o crescimento não é ainda tão expressivo. A Texas não abandonou de forma nenhuma a área digital, continua sendo majoritária no setor de DSP, e já apresentou crescimento significativo na parte de microcontroladores, com a linha MSP430 com vários lançamentos nos últimos anos, nós conseguimos realmente avançar bastante no setor de microcontroladores.
A última aquisição da empresa, que aconteceu há uns quatro meses, foi a compra da Luminary. Essa linha veio complementar o que a Texas não tinha em seu portifólio que agora é “robusto” de ARM e Cortex M3. Então com essa aquisição nós pretendemos avançar neste setor, com novos investimentos e produtos. Pegamos a base da Luminary que já tinha os seus produtos no mercado e a partir daí vamos ampliar essa linha, lançando novos produtos para complementar cada vez mais este portifólio.
Hoje, eu diria sem sombra de dúvidas, que a Texas é talvez a empresa que tem um portifólio mais completo do mercado, considerando ainda a parte de ARM adicionada.

A América do sul já representou em alguns setores 50% do mercado, e no setor de eletrônica não é bem assim, como a Texas encara isso?

A América do Sul, na verdade, o Brasil representa praticamente 90% da demanda da América do Sul, além do Brasil nós temos outros países que tem uma indústria eletrônica relativamente forte como a Argentina. Em segundo lugar a Colômbia, agora aflorando um pouco mais, mas sem dúvida o Brasil ainda é o centro em termos de profissão de indústria de eletrônica. Temos muita coisa para fazer e não precisamos investir em outros países da região.agora. Nós estamos atentos, sem dúvida, aos outros países, como a Argentina, a Colômbia, e o Chile, mas o Brasil continua sendo o foco da Texas na América do Sul.
Agora a nível mundial a América do Sul ainda é pouco representativa. Nós temos os dados estatísticos da área de semicondutores que mostra que mesmo considerando tudo que o Brasil importa, não só em componentes e circuitos, mas também em placa e outros, talvez não chegue a 2,5% do mercado mundial. Mas isso não significa que 2% não são expressivos  em dolares, porque o mercado mundial é bastante significativo.

Esses 2%, quanto você diria isso em dólares?

No mercado mundial, eu diria que o Brasil de hoje, tem uma importação declarada de componentes, divulgada pela Abinee, que chega a 2,5 bilhões se considerar a parte que vem de CKDs e FKDs, isso deve chegar em 4 ou 5 bilhões de dólares, é um mercado muito específico para a região considerando outras regiões do mundo como China e EUA, talvez isso não chegue a ser tão expressivo ao ponto de atrair investimentos para fabricação local. Embora isso seja um objetivo do Governo.

A burocracia no Brasil impede muita coisa de acontecer, princi- palmente no desenvolvimento das fábricas. Qual a sua opinião em relação a isso?

O que mais atrai investimentos seria a necessidade de mercado em termos de projeto, ou seja, quando você tem os equipamentos sendo projetados e fabricados no País, isso faz com que as empresas precisem colocar um pessoal para dar suporte a estes projetos. Em minha opinião, isso é o embrião de tudo, quer dizer, não adianta ter uma indústria, uma manufatura no país, que é o que vem acontecendo em vários setores como telefonia celular e computadores, mas o projeto destes equipamentos é feito em outras regiões do mundo. Isso no Brasil forma uma plataforma de manufatura apenas, então não é importante em termos de agregar valores.
Essa agregação de valor acontece quando é acompanhado desde o início até o final, assim você é obrigado a ter uma equipe para dar suporte a esses projetos, quanto mais isso acontecer, mais atrativo se torna o mercado. Então nós temos que criar nichos de projetos no País. Já existem alguns, mas temos que ampliar para que isso se torne expressivo, a partir daí se consegue ter mais investimentos das empresas de semicondutores e pessoal para dar suporte, e com isso se cria um ambiente que pode evoluir.

Quais as projeções da Texas para 2010?

Estamos otimistas para 2010, será um ano de retomada forte do mercado e tudo leva a crer que os próximos anos também serão desta forma. O Brasil vai necessitar de investimentos em infraestrutura, até para se preparar para os eventos mundiais que vamos ter no País em 2014 com a Copa do Mundo e em 2016 as Olimpíadas.Isso vai fazer com que haja uma necessidade de investimentos e a eletrônica está por cima de tudo . A eletrônica sem dúvida vai ter o destaque em todos os setores. Hoje não há um setor que não tem a eletrônica, por isso é que existe um otimismo muito grande de nossa parte, e estamos observando também, junto aos nossos clientes, que não há nenhum hoje que esteja pessimista em relação aos próximos anos. Acho isso muito positivo para todos nós.





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